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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Regresso

Escuta a primavera no cair da noite


Encontra em cada cor do crepúsculo


um motivo para sonhar


Ouve o segredo que o vento conta às folhas das árvores


Descobre o ouro do sol a reluzir no mar


quando a tarde vai a meio


Deixa-te levar pelas ondas sem medo de te afogares


Aprecia cada estrela como se cada uma tivesse


acabado de nascer


Olha para cada pessoa como se fosse única


Olha para cada pessoa com curiosidade


Com vontade de descobrir a sua história


Conhecer as suas memórias


o bem mais valioso que o tempo nos dá


 


Respira fundo e escreve


Escreve o que viste e o que imaginaste


Escreve por gosto ou até sem vontade


E, se algum dia sentiste que os versos te seguiam,


Voltarás a sentir


Voltarás a ser poeta


 








Triste de quem é sempre feliz


Hoje é dia da felicidade, mas não me sinto feliz. Há dias assim. Há dias em que estamos mais calados, menos sorridentes, mais pensativos, menos motivados. Em que parece que temos uma nuvem de melancolia a tapar-nos a visão – uma nuvem nublada.


 


O motivo? Nenhum. Simplesmente acordei assim. Claro que, lá no fundo, há motivo, daqueles que Freud explica. Tal como há dias em que nos sentimos estupidamente felizes, sorrimos por nada, encantamo-nos com tudo. Pensamos só em coisas boas e parece que temos um raio de sol a iluminar-nos o caminho.


 


Independentemente dos motivos, há dias felizes e tristes, bons e maus, quentes, frios e mornos. Triste de quem é sempre feliz e triste de quem é também sempre triste. É preciso haver um equilíbrio. Um tempo para a felicidade sem motivo e para a tristeza melancólica.


 


Talvez tenha sido numa ocasião estupidamente feliz que decidiram instituir um dia da felicidade, que não faz sentido nenhum, mas que nos faz pensar sobre este estado de alma, pelo qual passamos a vida toda tentando alcançar.


 


E porque amanhã é dia da poesia (esse sim faz todo o sentido), fica aqui o poema que inspirou o título deste post:


 


O Quinto Império


 


Triste de quem vive em casa,


Contente com o seu lar,


Sem que um sonho, no erguer de asa,


Faça até mais rubra a brasa


Da lareira a abandonar!


 


Triste de quem é feliz!


Vive porque a vida dura.


Nada na alma lhe diz


Mais que a lição da raiz —


Ter por vida a sepultura.


 


Eras sobre eras se somem


No tempo que em eras vem.


Ser descontente é ser homem.


Que as forças cegas se domem


Pela visão que a alma tem!


 


E assim, passados os quatro


Tempos do ser que sonhou,


A terra será teatro


Do dia claro, que no atro


Da erma noite começou.


 


Grécia, Roma, Cristandade,


Europa — os quatro se vão


Para onde vai toda idade.


Quem vem viver a verdade


Que morreu D. Sebastião?


 


Fernando Pessoa


 


Retirado daqui.

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