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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Pensar fora da caixa

27.11.14 | Alice Barcellos

A criatividade e a inovação são fatores fundamentais para a evolução. Podemos ter todos os meios à nossa disposição, as mentes mais inteligentes - o que não quer dizer que sejam as mais brilhantes -, e dinheiro de sobra. Não chega. Se não tivermos criatividade e capacidade de marcar a diferença, não há ideia que avance ou que dê certo. Pensar fora da caixa é tão complicado mas parece tão simples.


 


Ainda estes dias, conversei com alguns colegas de profissão sobre isto. Que é mais fácil jogar pelo seguro do que tentar fazer algo diferente dos parâmetros que já conhecemos. É mais fácil fazer o correto e o que é bem aceite, do que correr riscos e inovar. Inventar, ousar, sair fora do casulo que construímos para nós próprios, revestido de receios e anseios.


 


Nem de propósito, li uma notícia sobre um estudo que tentava desvendar o segredo das grandes tecnológicas que hoje são líderes. Google, Apple, Facebook e Amazon dominam em vários setores, faturam milhões, têm os melhores profissionais, mas nunca descuraram da criatividade e da inovação.


 


De acordo com o estudo Gafanomics, estas empresas pensam diferente e conseguiram criar novas regras de mercado, o que representou um terramoto para as empresas tradicionais. Do lado do utilizador, as gigantes tecnológicas mudaram a forma como encaramos certos serviços e produtos. Conseguiram fazer com que estes fossem essenciais no nosso dia-a-dia, nem que para tal tivessem que abdicar de algum lucro. E pensando bem, é verdade. Quantos de nós já não "vivemos" sem o Gmail, iPhone ou Facebook?


 


Mas o que é essencial hoje pode deixar de o ser amanhã e, por isso mesmo, estas empresas sabem que para fazerem parte do futuro dos seus utilizados/clientes têm de continuar a marcar a diferença, a apostar na criatividade e na inovação. Não é fácil mas, quando temos exemplos assim, vemos que é possível. Talvez não fosse má ideia termos, de vez em quando, a ambição de um gigante (tecnológico). Ou pelo menos, a força para abrir as tampas da (nossa) caixa e começar a ver o mundo que existe fora dela.


 


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O velho do meu bairro ou a pobreza que não queremos ver

25.11.14 | Alice Barcellos

Há quase sempre um velho que vagueia pelo nosso bairro. Pelo menos no meu há e já reparei o mesmo por outras vizinhanças. De barbas grisalhas carregadas, aspecto sujo, maltrapilho, o velho do meu bairro vive nos intervalos da visão. Aqueles que vislumbramos quando desviamos o olhar daquilo que consideramos ser importante. Quando, quase sem querer, olhamos, vemos, mas, rapidamente, viramos a cabeça para outro lado. Já vi o velho do meu bairro a andar por uma ou outra rua, a remexer nos contentores de lixo, já o vi, ao longe, na rua do meu prédio e, num dias destes, ao passar de carro, ia jurar que o tinha visto no telhado de uma casa abandonada.


 


Um louco, sem-abrigo, andarilho, não sei quem é o velho do meu bairro. E provavelmente nunca vou saber. É mais fácil mudar-me de casa e voltar a encontrar um “novo” velho em outro bairro. Porque histórias como esta, vazias de conteúdo e cheias de estereótipos, estão escondidas em cada canto da cidade. Talvez não estejam assim tão escondidas, talvez nós é que não queiramos vê-las. É uma realidade dura, difícil de encarar e para qual muitos não estão preparados para lidar.


 


Mas há quem as encare de frente e, melhor ainda, consiga mostrá-las de uma forma digna. Há quem pegue nos velhos dos nossos bairros e lhes dê cara, nome e uma oportunidade de contarem as suas histórias. É o que acontece num documentário e num ensaio fotográfico de jornalistas portugueses recentemente divulgados.


 


2 metros quadrados”, documentário de Ana Luísa Oliveira e Rui Oliveira, centra-se nos sem-abrigo do Porto. Nas suas histórias, na dignidade possível com que tentam levar as suas vidas e na rede de apoio que existe para ajudar estas pessoas – muitas delas ficaram sem um teto não pelos motivos mais óbvios, mas sim por alguma infelicidade ou percalço da vida.


 


Já em “Roof”, o fotojornalista Mário Cruz encontrou casos de pessoas que vivem em locais abandonados de Lisboa, um teto que, mais do que abrigar, esconde uma pobreza que envergonha o país e passa ao lado de muita gente.


 


Num altura em que somos bombardeados com escândalos políticos e financeiros a um ritmo quase frenético, é necessário que projetos como estes tenham também a divulgação que merecem. Para que deixemos de pensar nestes assuntos só quando nos cruzamos com eles de forma fugidia. Para não desviarmos o olhar do velho do nosso bairro, nem das caixas de cartão ou trouxas de roupa cada vez mais comuns nos cantos e becos da cidade.


 



2 Metros Quadrados_trailer from pixbee on Vimeo.

Outono em rima

23.11.14 | Alice Barcellos

Tentei descrever em prosa e verso


o brilho outonal de cada folha caída


mas culpa do pensamento disperso


acabo a história sem encontrar uma saída


 


Tentei guardar na memória


a paleta de cores daquela tarde


mas culpa da luz ilusória


as cores fugiram como uma vela que arde


 


Se faço versos com rima


é porque gosto do outono


guardando-o sempre na retina


como um cão guarda o dono


 


Juntei cada folha e cor


e cobri-me de outono


um simples gesto de amor


para a mais dramática estação do ano


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Barcelona

20.11.14 | Alice Barcellos

Barcelona estava na minha lista de viagens fazia tempo... mas escapava entre imprevistos mais ou menos previstos. Porque não voltar a Paris? Ir antes a Londres ou uma virose que venceu, no início deste ano, a minha vontade – já materializada numa passagem e hotel reservados – de conhecer a capital da Catalunha.


Neste mês, numa decisão de última hora (muitas vezes as melhores), consegui arranjar quatro dias para fugir. E Barcelona não escapou. Foi um caso de amor à primeira vista. Desde a chegada num dia de sol e temperaturas amenas em pleno outono, às varandas floridas, exibindo as bandeiras da Catalunha. O referendo pela independência havia sido na semana anterior e o orgulho catalão está mais pujante do que nunca.


Sem querer perder o foco deste texto noutros assuntos não menos importantes, centro-me na cidade que pude conhecer nestes dias. Cidade, sim. Barcelona, mais do que museus, igrejas ou monumentos, é uma cidade que vale por si.


Pelas ruas estreitas e labirínticas do Bairro Gótico, que se abrem em praças acolhedoras. Pela vida que passa ao ritmo do passo apressado nas Ramblas, onde todos os turistas acabam por parar. Pelos cafés, bares, restaurantes e padarias, pela vida de bairro. Pelo génio de Gaudí que deixou a sua marca inconfundível em vários pontos da cidade. Pelos altos e baixos, pelos contrastes. Do mar que avistamos ao longe entre o verde do Montjuic e o Park Guell, ao mar que sentimos de perto em Port Vell e Barceloneta. Cada parte da cidade tem histórias para contar, pautadas pela simpatia e o estilo próprio dos seus habitantes.


Ficou muito por ver, mas o que vi encheu-me o coração. Com a certeza absoluta de um amor à primeira vista, afirmo que esta é uma das minhas cidades de eleição. Barcelona, da próxima vez não me escapas.


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 Fotos publicadas no meu Instagram.