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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

As palavras querem tempo

27.08.15 | Alice Barcellos

Os dias vão passando e elas aguentam. Entre tarefas, teclas e cliques, elas esperam aqui dentro. Vão brotando e querem sair, mas não podem. A semana está quase no fim e vais ganhando aquela angústia miudinha de quem não consegue deitar cá para fora as palavras que nascem dentro de ti.


 


Estas palavras que guardo comigo são egoístas. Não querem ser divididas com as outras tantas palavras que já estão cá fora e que passam pelos meus olhos, sempre apressadas. Querem estrear um bloco novo ou sentir calma nos dedos, quer seja a segurar numa caneta ou a escrever no computador. São palavras valiosas que não se podem perder no correr do relógio, nem nos automatismos de um teclado. Querem perdurar.


 


Querem aproveitar a claridade da manhã, entre goles de café e pausas para pensar. Precisam de horas inteiras dedicadas só para elas e não uns minutinhos livres, entre isto ou aquilo. No fim do dia, com a cabeça e os olhos cansados, as palavras perdem a força e, como que adormecidas, desistem de sair, só se mostrando outra vez naquele momento em que estamos quase a entrar no sono profundo. Outro dia começa e a angústia das palavras presas aumenta mais um bocadinho.


 


Estas palavras que levas contigo precisam de tempo para sair e tempo é algo que tu não tens.

Sexta-feira e uma praia

14.08.15 | Alice Barcellos

Quem me conhece, sabe que eu tenho uma paixão pelo mar. Gosto da praia no inverno e no verão, em dias nublados e ensolarados. Gosto de perder os meus pensamentos na linha do horizonte e descansar a vista no azul infinito. O mar deu-me sempre tanto e nunca me pediu nada em troca. Outra das minhas paixões é a fotografia. Juntando uma paixão a outra, nasce esta ideia de mostrar uma praia nova a cada sexta-feira. Vou começar com fotografias minhas mas, como ainda tenho muito mundo para conhecer e muitas praias para mergulhar, vou acabar por ter de recorrer a outros autores/fontes, se quiser manter este "projeto" durante algum tempo. Não será difícil encontrar boas fotos, estou certa.


 


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Praia de São Pedro de Maceda (Ovar)

Pés de lã

11.08.15 | Alice Barcellos

Para os meus gatos


 


Os gatos têm pés de lã. De pantufas invisíveis, os gatos entram sem pedir licença, alguns mais dóceis, outros mais ariscos. Os gatos, com a sua arrogância natural de quem tem sete vidas e cai sempre de pé, caminham sem fazer barulho. O chão para eles é como nuvens, sempre suave ao seu andar silencioso.


 


Os gatos têm pés de lã. Não gostam de dormir durante a noite, preferem vaguear à sombra da lua, a procurar brigas de rua. Voltam cansados e mal dispostos, com o focinho arranhado, de vez em quando. Esgueiram-se pela porta mal fechada e procuram o conforto do sofá para o sono merecido. Que também pode ser no chão do pátio, naquela nesga de sol, ou num canto da garagem, em cima de uma mochila esquecida. A cama é onde se deitam. Dormem, sempre, profundamente, até serem acordados por ruído ou voz.


 


Os gatos têm pés de lã que escondem unhas afiadas. Tudo serve para afiar as garras, o tronco de uma árvore ou umas simples calças de ganga. Os gatos arranham e fazem-nos sangrar, mesmo quando estamos a brincar com eles.


 


Os gatos têm pés de lã. Não precisam de nós e, alguns, não gostam mesmo de nós, aproveitam-se. Mas os que gostam, demonstram, com ronronares deliciosos que descansam os ouvidos de outros miados e meandros. Eles não precisam de nós, mas quando querem, fazem do nosso colo cama e partilham connosco os seus olhares felinos mais doces.


 


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O Algarve que me encanta

07.08.15 | Alice Barcellos

Lembro-me bem da primeira vez que fui ao Algarve. Ao contrário de muitas pessoas, a região mais a sul de Portugal não faz parte das minhas memórias de férias infantis e em família. Por ter vivido a minha infância no Brasil, só conheci o Algarve quando comecei a passar férias com amigos. Uma ótima altura para explorar esta costa dourada e ensolarada.


 


Desde então, daquela primeira vez em que ficamos a acampar na Costa Vicentina e, depois, em Ferragudo, tenho voltado ao Algarve com regularidade. Não é um destino anual, mas também não consigo ficar muito tempo longe daquelas falésias e arribas que recortam o mar de uma maneira tão bela e singular.


 


Foi mesmo esta singularidade que me conquistou. Caminhar pelas falésias e avistar Sagres, descobrir praias só acessíveis de barco, apreciar estes castelos naturais, esculpidos pela água e pelo vento. Tanto mar, tanto azul. O Algarve é, acima de tudo, isso. Depois, claro, há o turismo de massas, as cidades maltratadas, a construção desordenada, as estradas esburacadas e a confusão das praias mais concorridas.


 


Mas, antes disso, há as cidades e as vilas charmosas, o peixe fresco grelhado, a simpatia e o sotaque delicioso dos algarvios. Há o descanso nas praias com pouca gente (sim, elas existem), há o mergulhar no mar para descobrir os seus segredos. As verdadeiras noites de verão e o sol tão quente logo ao acordar. Há um mar de cores cristalinas que me conquista a cada olhar.


 


Este ano não foi diferente, durante uma semana, ainda em julho, dediquei-me a arte de ir para a praia sem preocupações, apanhar banhos de sol, ler, nadar, comer e dormir. Ações que dão o verdadeiro sentido à palavra férias. Apanhei dias perfeitos de verão, com calor e um mar que era uma piscina em tons de verde e azul. A água não estava geladíssima, mas também não se pode dizer que estava quente. Refrescante e boa, para quem, como eu, não tem "medo", e até aprecia bastante, um mergulho em águas mais frias. Este é o Algarve que me encanta e, por isso, deixo aqui um registo fotográfico de um roteiro possível pelas praias por onde andei este ano.


 


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 Praia do Carvalho (Lagoa)


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 Praia da Marinha (Lagoa)


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 Praia do Molhe (Ferragudo, Lagoa)


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 Senhora da Rocha e Praia Nova (Lagoa)


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 Praia de Caneiros (Ferragudo, Lagoa)


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 Praia Nova (Lagoa)

Agosto, o melhor mês para... trabalhar

05.08.15 | Alice Barcellos

Há alguns anos que não tiro férias em agosto. A decisão não fez parte de nenhuma posição fundamentalista ou anti-social, muito pelo contrário, gosto de trabalhar no mês em que (quase) toda a gente vai de férias. Gosto de ver a cidade cheia de turistas e de aproveitar os fins de semana como se eles fossem, por si só, umas mini-férias.


 


Até pode parecer estranho que uma pessoa assumidamente do verão e da praia não queira aproveitar o tão querido mês de agosto para ir a banhos e dedicar-se ao dolce far niente. Mas, a verdade é que, fruto das agendas familiares, risquei agosto do meu mapa de férias e não me arrependo.


 


Começando pelo bom tempo. Nem sempre temos o melhor mar em agosto, mas isso também é uma questão de sorte – já apanhei marés vivas no Mediterrâneo e vi aquele mar-piscina transforma-se num festival de ondas. Cá pelo Norte, o vento tem vontade própria e sopra frio quando ele bem entende. Por isso, os dias espetaculares de praia podem acontecer em qualquer altura do verão (e, às vezes, da primavera). A água é gelada, salvo alguns dias em que está fria, mas também o é no Algarve, quando não temos sorte (já está visto que o verão combina com a sorte) de apanhar umas correntes mais quentes. Posto isto, agosto não é o mês, por excelência, do bom tempo.


 


Trabalhar em agosto é descobrir o verdadeiro prazer de conduzir na cidade, neste caso, no Porto. Pode parecer descabido, principalmente para quem não gosta de conduzir ou não tem paciência para o para e arranca. Mas, em agosto, é raro haver trânsito e as horas de ponta são suaves. Vou e volto do trabalho sem ter a preocupação do trânsito, aproveitando para curtir a paisagem, vidros abertos, cabelos ao vento, atravessando as “minhas” pontes preferidas e vendo a cidade a viver os seus dias de glória.


 


Se muitos fogem da cidade este mês, outros tantos chegam para a conhecer. Os turistas pintam o Porto o ano todo, é certo, mas em agosto trazem outro colorido, com mais azáfama nas esplanadas e nas ruas da baixa. Câmaras fotográficas ao ar, pernas ao léu e sandálias nos pés. Misturam-se com os locais nos cafés e restaurantes da moda ou são capazes de estar horas na fila para entrar na livraria Lello. Vida de turista...


 


Para quem fica a trabalhar, espera-se pelos dias de fim de semana e de folgas religiosamente – mas isso acontece o ano inteiro, não é? Em agosto, a vantagem é que os dias de folga são, inevitavelmente, dias de praia, a não ser quando chove. É quase como se entrássemos de férias a cada sexta-feira. E que bem que sabe poder gastar o tempo livre com mergulhos no mar e Bolas de Berlim. As segundas começam sempre melhor em agosto.


 


É por isso que, mesmo a trabalhar, este é um mês querido e esperado. E quando dou por mim, com os pés afundados na areia da praia, vejo agosto a ir embora, como uma onda que se desenrola entre os meus dedos.



And so with the sunshine and the great bursts of leaves growing on the trees, just as things grow in fast movies, I had that familiar conviction that life was beginning over again with the summer


F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby


 



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