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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Como a crise na Venezuela está a deixar o mundo ainda mais preto e branco

25.01.19 | Alice Barcellos

Vivemos num tempo em que és de esquerda ou és direita, és comunista ou és fascista, és completamente a favor ou és completamente contra. É preto ou é branco. E no cinzento, ali no meio, milhões de pessoas pagam muito caro por esta divisão cada vez maior alimentada por um discurso de ódio maniqueísta, amplificado pelas redes sociais - onde se dão as discussões mais fervorosas e, ao mesmo tempo, mais superficiais de sempre.

 

Esta semana explodiu, embora de forma controlada, o barril de pólvora que a Venezuela se tornou nos últimos anos. Para refrescar a memória: Nicolás Maduro está no cargo de presidente desde 2013, com poderes especiais, tendo tomado várias medidas anti-democráticas. Maduro foi o sucessor de Hugo Chávez, que esteve no cargo de presidente desde 1999. Antes disso, em 1992, Chávez tinha tentado um golpe de Estado contra o presidente Carlos Andrés Pérez como resposta à crise económica, marcada por inflação e desemprego, que o país atravessava. 

 

A revolução socialista de Chávez pode ter tentado mudar muita coisa, mas não encontrou solução para um ponto fundamental: a dependência económica ao petróleo. Como é possível, com tantos antecedentes, manter um sistema de gestão que não funciona e que causa, inevitavelmente, crises económicas graves? Assim que, volvidos tantos anos, com um governo populista que luta para permanecer no poder usando todos os meios possíveis e anti-democráticos, o país atravessa uma crise sem precedentes - a pior da história venezuelana, mais grave do que a dos Estados Unidos durante a Grande Depressão.

 

Segundo números da ONU, mais de 2,3 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos três anos. Um número maior do que os refugiados que entraram na União Europeia nos últimos quatros anos (1,8 milhões). 

 

Os que ficam lutam contra condições extremas: falta tudo num país onde o dinheiro não vale nada. A população vive sem o básico e sem perspectivas de futuro. Crianças morrem todos os dias a fome, num flagelo gravíssimo que o governo tenta esconder a todo o custo. Se não tiveram hipótese de ler e ver, esta é a altura ideal para conhecerem este trabalho de investigação do New York Times sobre a mortalidade infantil no país

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Cartoon de Camdelafu partilhado pelo P3

 

Por estes dias, o mundo voltou a olhar para Venezuela com olhos de ver e, provavelmente, muita gente já se tinha esquecido desta situação de crise económica e social nos últimos tempos. O líder da oposição, Juan Guaidó, autoproclamou-se presidente interino do país, defendendo um governo de transição e a realização de eleições livres, perante uma multidão que se manifestava em Caracas. Seguiram-se ondas de reações a favor e contra esta tomada de posição, de reconhecimento do novo líder ou de recusa.  

 

E, enquanto o impasse permanece, multiplicam-se os comentários de que o único interesse em retirar Maduro do poder é a sede norte-americana ao petróleo da Venezuela. É o preto e o branco. Ou és pró ou és contra os americanos. Ou és pró ou és contra os russos. Quem disse que a Guerra Fria acabou estava redondamente enganado. Neste jogo de poder mundial, as peças estão agora sobre o tabuleiro da Venezuela e é fácil passar a mensagem de que "isso não passa de um golpe dos Estados Unidos para ficar com o petróleo todo".

 

Mas, meus caros leitores, pasmem-se: os Estados Unidos nunca deixaram de ser o maior comprador de petróleo da Venezuela. Apesar das "bocas" anti-americanas de Chávez e Maduro, os barris continuaram e continuam a seguir a todo o vapor para o Tio Sam. Nunca houve um boicote ou algo do género. Por isso, parem de entrar neste jogo que nos querem impor, sem antes refletir no que realmente importa: as pessoas. 

 

Eu espero que Maduro e cia. saiam o quanto antes do poder e que a Venezuela tenha eleições livres. Que seja possível restaurar um pouco de dignidade e, com ela, bens essenciais, cuidados de saúde e educação que o país perdeu nestes últimos anos. Não sei se quem chegará ao poder será um fantoche dos EUA, da Rússia ou da China, se será de direita ou de esquerda. Só espero que seja alguém que consiga mudar o país para melhor porque a situação é insustentável. 

 

Infelizmente, grande parte das tomadas de decisão não está nas mãos do povo. Mas está nas nossas mãos a capacidade de pensar, refletir, pesquisar, exigir a verdade e a multiplicidade dos factos, sem ir atrás de ideias que circulam à velocidade de posts e tweets. Está na altura de abrirmos os olhos para os milhares tons de cinzento que existem entre o preto e o branco. O extremismo não nos vai levar a lado nenhum que não seja o de governos totalitários e que deixam as pessoas para o último plano. Exemplos não faltam por aí. 

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Protesto de venezuelanos, 23 de janeiro, Porto. Foto: Daniel Mckay

Cantinho das Aromáticas: para fugir da cidade (dentro da cidade) e conhecer plantas que nos fazem bem

16.01.19 | Alice Barcellos

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Poderia falar de que esta foi a primeira quinta de agricultura biológica urbana em Portugal, poderia referir os inúmeros prémios que as suas tisanas e infusões já conquistaram, poderia enumerar a diversidade de plantas aromáticas, medicinais e condimentares que podemos ali encontrar, prontas a usar ou em vasos para cultivar em casa.

 

Poderia dar a conhecer a história do Luís, agricultor de coração, que acreditou neste lugar e fez crescer um projeto vencedor. Poderia falar da simpatia de uma equipa disponível que recebe sempre os visitantes de sorriso estampado. É... poderia escrever uma bela reportagem sobre o Cantinho das Aromáticas, em Vila Nova de Gaia, mas prefiro deixar os sentidos falarem, afinal, são sempre eles que guardam os lugares especiais na nossa memória e provocam vontade de voltar.

 

O som do vento a passar entre as folhas das árvores tem o dom de me limpar a cabeça e relaxar, tal como o som das ondas a desenrolar na areia. Quando começamos a descobrir o Cantinho das Aromáticas é na fileira de choupos que reparamos, alinhados e elegantes, a marcar o caminho. Se estiverem com folhas e se for um dia de vento, é o som da brisa a trespassar entre as folhas que fica nos ouvidos e nos embala os pensamentos. Em frente, olhamos para um campo aberto onde estão sempre animais a pastar, cavalos, burros ou bois. 

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A cor verde é uma constante, mas outras surpresas nos aguardam pelo percurso.

 

A minha altura preferida é quando podemos apreciar o espetáculo das perpétuas em flor. Não pensem que são apenas roxas, como a maioria das pessoas conhece; são brancas, rosa-bebé e vermelhas, de um vermelho vivo e alegre. 

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Já quase nos esquecemos de que estamos dentro da cidade e continuamos a percorrer o espaço, até que paramos no pombal de pedra do século XII. A construção antiga remete-nos para outros tempos e lembra-nos de que este é um lugar com muitas histórias. A mais conhecida conta que D. Pedro e Inês de Castro percorreram estes campos há muitos e muitos anos atrás (no século XIV). 

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Depois de encher a vista com as cores das perpétuas ou das equináceas e a imaginação com histórias do romance proibido mais famoso do país, é altura de descer à terra e de tocar em algumas plantas para sentir o cheiro que nos revelam as nossas pontas dos dedos. O da hortelã-pimenta é o meu favorito. Mas existem muitos outros a conhecer: alecrim, tomilho, lúcia-lima, alfazema, e por aí vai.

 

É com estes aromas em mente que podemos provar infusões, tisanas ou chás - aqui têm de saber a diferença entre estes termos - ao passar na lojinha da quinta para dar uma vista de olhos nos produtos ali expostos, entre dois dedos de conversa, de chávena na mão.

 

Regressamos sempre ao Cantinho das Aromáticas. Em família ou com amigos, quando temos alguém de visita e queremos mostrar um lugar especial. Em sintonia com a natureza, sem sair da malha urbana, quando cruzamos aqueles muros de pedra, ficamos com a esperança de que, se houver vontade, o mundo pode ser um lugar melhor.

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Quando estiverem por Vila Nova de Gaia, não deixem de lá passar.

 

Cantinho das Aromáticas
Rua do Meiral, 508
4400-501 Canidelo
Vila Nova de Gaia

Tlf: 227710301
Telemóvel: 912260714

Vida com sabor a chocolate branco

05.01.19 | Alice Barcellos

Ainda era uma menina. Gostava de boys bands, sonhava com um futuro brilhante e feliz, comprava revistas para adolescentes, tinha medo de filmes de terror e quase que acreditava em feiticeiros enquanto devorava os livros do Harry Potter. A vida era simples, apesar de se ter mudado há pouco tempo para um país diferente que, apesar da mesma língua, ainda não tinha mostrado outras semelhanças com a sua terra natal. Mas sentia-me em casa. Ia a pé para escola, inventava aventuras na cidade de praia onde vivia e escrevia rimas no meu diário. Era tão bom viver com o mar mesmo ali ao fim da rua. "Em Espinho é assim, desces as ruas e acabas sempre no mar". Foi o que ouvi dizer e pude comprová-lo nos anos que ali passei.

 

Não guardo grandes memórias desta época, entre a escola e os tempos livres, há uma lembrança que vem sempre ao de cima quando como chocolate branco. Num dia destes, sentada com a minha mãe numa mesa de café, ela ofereceu-me uns quadradinhos de uma tablete que trazia na bolsa. Ali, naquele momento de cumplicidade, contei-lhe que sempre que comia chocolate branco me lembrava dos tempos de Espinho.

 

De vez em quando, naquela altura, a minha mãe dava-me uma tablete para eu levar para a escola, um miminho para a hora do lanche. Um pequeno tesouro que desembrulhava cuidadosamente do papel de alumínio e partilhava com as minhas amigas mais chegadas. Naquele tempo, e já lá vão alguns anos, saboreávamos o chocolate sem pensar nestas questões chatas que importunam muitas pessoas (muitas mulheres, principalmente) neste mundo de padrões, pressões, modelos e hábitos de vida saudáveis. Naquele tempo, aquele chocolate era inofensivo e aqueles quadradinhos eram pequenas porções de felicidade instantânea.

 

Os anos trazem com eles outras histórias. A menina virou mulher, já não vive na cidade de praia, mas o amor pelo mar e pelas coisas simples da vida andam sempre estampados no seu sorriso. A vida nem sempre é doce, mas deveria ter mais vezes o sabor a um quadradinho de chocolate branco.

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Cinco metas para 2019 (que qualquer um pode cumprir)

02.01.19 | Alice Barcellos

É impossível não pensar num novo ano como um pretexto para recomeçar. E eu, que adoro recomeços, mentalizo sempre metas, objetivos, coisas que quero fazer melhor ou mais vezes. Nem sempre escrevo, das vezes que o fiz foi num bloco, creio que nunca as tornei públicas. No entanto, como este ano tenho algumas metas que podem servir de inspiração para outras pessoas, resolvi partilhar neste texto. 

 

Não acredito em resoluções de ano novo que não podemos cumprir. Em algum momento da minha vida prometi a mim mesma coisas que não consegui cumprir e sentir aquele sentimento de falhanço no fim de mais um ano é frustrante - quem é que nunca passou por isso? Assim sendo, opto sempre por pensar em objetivos que vou conseguir cumprir, pequenas metas que, quando atingidas, podem ser vistas como grandes vitórias. Já dizia o poeta, "a vida é feita de pequenos nadas" - que podem fazer toda a diferença na nossa rotina. Vamos a isso?

 

1. Usar menos plástico 

 

2018 foi o ano de alarme geral para o excesso do plástico e de como ele está a matar os nossos oceanos e a contribuir para degradação do planeta. Não é um problema novo, mas tenho a ideia de que só em 2018 o mundo acordou para ele. Antes tarde do que nunca, sendo que neste caso pode ser já tarde demais, fomos entupidos com notícias sobre o tema, dicas para usar menos plástico e campanhas de sensibilização.

 

De facto, comecei a pensar mais sobre o uso deste material no meu dia-a-dia e de como o utilizamos, tantas vezes, de forma descartável (o chamado "single use plastic"). No copo de café que tiramos da máquina, nos saquinhos da fruta do supermercado, nas garrafas de água e por aí vai, basta pensar um pouco mais nos nossos comportamentos diários para chegarmos à conclusão que somos plástico-dependentes em muitas áreas das nossas vidas. 

 

Mas é possível diminuir significativamente o uso deste material com pequenos gestos. Deixo aqui algumas dicas que podem ajudar, se ainda não começou a fazer isso e quer começar este ano. Eu já comecei a pensar nisso há alguns anos, mas quero ter esta meta "usar menos plástico" cada vez mais em prática no meu dia-a-dia. 

 

E para quem, como eu, gosta de ir à praia em qualquer altura do ano, que tal começar a recolher o plástico que, principalmente no inverno, se acumula na areia? Confesso que não o faço sempre, mas quero começar a fazer. A sensação de dever cumprido após recolher o plástico da praia deixa-nos, logo, mais felizes.

 

2. Passar menos tempo nas redes sociais

 

Não sou contra o uso das redes sociais, aliás, são uma ferramenta essencial no meu trabalho e, quer queira quer não, tenho de utilizá-las quase todos os dias. Mas a verdade é que acabo por perder algum tempo a procrastinar que poderia ser gasto em outras tarefas mais enriquecedoras - o ócio pode e deve ser mais criativo. Assim sendo, vou tentar fazer menos vezes "scroll" e passar mais tempo a...

 

3. Ler mais livros

 

...folhear páginas de livros. Creio que às custas das redes sociais os hábitos de leitura de muitas pessoas diminuíram bastante. Eu contra mim falo. Quantas vezes ficamos a navegar pelas redes antes de dormir, ao invés de ler três ou quatro páginas de um livro?

 

A ciência tem provado que levar com as luzes dos smartphones na cara antes de dormir é mau, mas nunca li nenhum estudo sobre os malefícios de ler um livro à noite. Além disso, ler traz o bónus de ajudar a termos mais empatia e a compreender melhor os outros - uma capacidade muito necessária e cada vez mais escassa nos dias que correm. 

 

4. Ir a um sítio que não conheço - e só um já é muito bom

 

Viajar transformou-se num vício para muita gente e numa forma de viver para aqueles que escolheram ser viajantes a tempo inteiro, dos quais todos os dias lemos e vemos histórias inspiradoras na internet - principalmente, quando se trabalha num site de viagens.

 

Já nos ensinou Dalai Lama: "uma vez por ano vá a algum lugar onde nunca esteve antes". Para muitas pessoas, viajar uma vez por ano não é mais suficiente, vive-se muito na ânsia do viajar-para-partilhar e não do viajar para, de facto, ter uma experiência diferente. O turismo de massa assombra as grandes cidades e muitos destinos adotam medidas para travar a enchente de pessoas que os visitam todos os dias. Um jornalista da Lonely Planet escreveu que, em 2018, o turismo ficou "tóxico" - a palavra do ano eleita pelos Oxford Dicionaries - e eu sou capaz de concordar, sabendo que o mundo é um lugar maravilhoso e tudo depende da forma como decidimos explorá-lo.

 

Se em 2019 conseguir ter a sensação de que estou a descobrir um novo lugar, já me dou por satisfeita.

 

5. Comer menos carne

 

Não é preciso adotar um comportamento radical para alterar um hábito alimentar que terá de mudar em breve pela sustentabilidade do planeta. Se toda a gente reduzisse o consumo de carne semanal, seria possível fazer grandes avanços. Mas, já sabemos, o lobby é muito forte, a indústria gera milhões e o apelo ao consumo só vai parar quando já não houver mais florestas para devastar. Isso para não falar na forma como são tratados e mortos muitos dos animais que comemos.

 

Creio que a maioria das pessoas já está consciente de tudo isso, mas não quer deixar, de todo, de comer carne porque, simplesmente, gosta - e a comida, bem sei, é um dos prazeres que temos nesta vida. Eu me incluo neste grupo. Quem sabe um dia consiga deixar de vez. Mas como sei que não vai acontecer em breve, prefiro comprometer-me a fazer menos refeições com carne e ter sempre em atenção a origem da mesma. 

 

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Com votos de um excelente 2019!

 

Imagem: Pixabay