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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

A velha e o lobo. Um conto de Natal

19.12.20 | Alice Barcellos

Dedicado a todas as pessoas que este ano passam o Natal sozinhas

O dia amanheceu cinzento e frio. O nevoeiro escondia os cumes das altas montanhas pintados de branco. Não se viam, pois eram mestres em ser invisíveis, mas os lobos andavam ativos pelas serras, à procura de alimento, que, naquela altura do ano, era mais escasso.

Ali, no meio daquele vale inóspito, abandonado pelos homens, ela resistia na sua singela casa de pedra. Acordava com as galinhas, não tinha medo do frio, o fogo era companhia diária e ela sabia melhor do que ninguém a arte de o manter sempre acesso. A casa, por fora, tinha a frieza do granito escurecido pelo tempo, mas por dentro era um acolhedor chalé de montanha que muitos viajantes do mundo moderno desejariam fazer de refúgio.

O tempo não perdoara a sua face e escavara sulcos profundos que eram quase um mapa a mostrar a dureza de sua vida. Antes, quando a aldeia, agora abandonada, ainda tinha habitantes, o trabalho era duro mas alegre, entre a agricultura e o pastoreio, havia sempre tanto o que fazer que os dias eram curtos, até mesmo nos claros e quentes verões. Agora, ela resistia a mais um inverno, a amassar a broa e a comer castanhas, enquanto apreciava as chamas que dançavam num bailado silencioso.

Em cima da lareira, havia um pequeno presépio, uma peça de família, com uma história tão antiga que nem ela sabia bem contar. Era a única referência que ali existia ao Natal. Memórias era o que ela guardava desta época, agora esvaziada de pessoas. Já não encontrava conforto na religião. A vida não tinha sido fácil. Dois filhos levados pela morte antes do tempo, o marido partira sem deixar rasto. Já não tinha ninguém a quem chamar de família e o que é o Natal se não o encontro com aqueles com quem partilhamos o sangue, uma história em comum, talvez algum afeto e amor? Com ela, amor e afeto sempre foram apenas sentimentos disfarçados entre mãos calejadas e palavras rudes.

Esperava pacientemente pela data marcada no calendário que mantinha atrás da porta. Desejava, por vezes, que a data da sua morte também viesse ali assinalada, assim, a espera seria menos penosa. No entanto, sabia que isso não iria acontecer e a única maneira era continuar a confiar na antiquíssima lei natural do mundo e a viver ao ritmo das estações.

Naquela manhã, saiu para verificar a horta, de enxada na mão, capa bem apertada e gorro na cabeça. Não demorou muito a ouvir um barulho diferente do habitual que vinha do bosque, que começava atrás da casa. Parecia um choro infantil, de bicho ou humano, era difícil distinguir. Coisas da minha cabeça, pensou a velha. Continuou a arrancar as ervas daninhas, até que o barulho foi ficando mais alto. Pousou a enxada e começou a caminhar na sua direção. Aninhada entre uns fetos, estava uma pequena cria de lobo que deveria se ter perdido da alcateia. Estava ferida numa pata e gania, pedindo ajuda.

A mulher levou o pequeno animal para dentro de casa e fez os possíveis para o salvar. Limpou-lhe a ferida, deu-lhe leite e bocados desfeitos de broa. O animal respondeu bem ao tratamento e alguns dias depois já parecia pronto para voltar à floresta. Ela sabia que não poderia ficar com ele, mas tinha se afeiçoado ao pequeno lobo e não queria perder a sua companhia.

Os dias foram passando e o animal foi aprendendo a seguir a velha para onde quer que ela fosse. Às vezes, à noite, uivava à janela, a responder ao chamamento dos seus iguais que dominavam as serras ao redor. Mas já era tarde para seguir o seu lado selvagem, encontrara ali um lar e uma companhia a quem não poderia abandonar.

Chegou a noite de Natal e a velha sentia-se feliz, pela primeira vez em muitos anos. Preparou uma galinha assada com batatas e couves, bebeu vinho tinto, até fez um bolo de mel. Dividiu a refeição com o lobo e, juntos, ficaram a observar a dança silenciosa do fogo. Lá fora, a neve começara a cair. A alcateia tinha deixado de rodear a casa durante a noite à procura do membro perdido. Sabia que o pequeno lobo estava onde era necessário estar.

wolf-1992716_1920.jpgImagem: Pixabay

Texto escrito para a iniciativa da imsilva: Vamos escrever um conto de Natal?