Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Os mistérios da Terceira

30.04.21 | Alice Barcellos

A Terceira fez-me viajar pela origem de tudo. A começar pelos nomes. Para quem gosta de viajar pelas palavras, como eu, a Terceira é uma delícia, tal como o doce de vinagre, cujo nome despertou logo curiosidade*. “Aqui nos Açores, gostamos de simplificar os nomes”, disse-nos um dos monitores do Centro de Interpretação da Serra de Santa Bárbara. A começar pelo nome da própria ilha que, quando foi descoberta (a terceira do arquipélago dos Açores a ser povoada em 1450), ganhou o nome de Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo das Terceiras. Restou apenas Terceira, e ainda bem.

Há muitos nomes religiosos e de santos, como em todo Portugal, mas com as particularidades de uma ilha que sofreu à mercê dos fenómenos naturais (que durante muitos anos foram interpretados e nomeados como mensagens divinas). É o caso da Procissão dos Abalos, que se realiza a 31 de maio, desde que uma série de sismos afetou a ilha devido à erupção de um vulcão submarino.

Há outros nomes que me fizeram sorrir. Como os Mistérios Negros. Sob o olhar da ciência, é um fenómeno geológico composto por lavas traquíticas, formado na última erupção histórica da ilha em 1761. Ali, naquele dia de brumas e ventanias, ao passar por estes montes de lava que contrastavam com o verde da paisagem, eles pareciam ainda mais negros e misteriosos. Sob o olhar de quem lhe deu o nome, sem uma explicação científica para a sua origem, é impossível negar que aquela paisagem provoca estranheza e destoa do resto. Que mistérios guardavam aquelas rochas negras?

As mesmas rochas que os navegadores compararam com os biscoitos duros e resistentes que levavam nas viagens marítimas, julgando até que aquele povo estava louco a cultivar em cima de farinha remexida. Biscoitos. Assim nascia o nome de uma freguesia onde as vinhas se plantam entre o basalto que criou, junto ao mar, um labirinto de piscinais naturais. Naquele dia de tempestade, o mar galgava as rochas sem piedade, mostrando a sua essência indomável, enquanto desejávamos um dia de sol e calmaria para enxergar a vertigem azul daquelas águas. Mergulhar, quem sabe.

Por mais que a ciência explique tudo e mais alguma coisa, o mistério da Natureza permanece e surpreende-nos sempre. Como quando descemos as escadas do Algar do Carvão e parece que estamos a entrar num mundo jurássico, rodeados por aquele fantástico jardim vertical que encontrou terreno fértil nas paredes da chaminé vulcânica. Por capricho ou casualidade, a Natureza deixou ali aquela entrada para as suas entranhas, onde podemos ainda ver uma lagoa e duas grandes cúpulas, uma delas, apelidada de catedral. Sim, aos olhos de quem lhe deu o nome, aquela gruta vulcânica foi considerada um templo. Independentemente do credo, é verdade que estamos num lugar sagrado. Sente-se no invisível, ouve-se no som das gotas de água.

Assim, o homem molda a Natureza ou, pelo menos, tenta. À sua medida e aos seus objetivos. Criando, por vezes, cenários de sonho, como a manta de retalhos que ocupa grande parte da ilha e que pode ser contemplada de forma sublime da Serra do Cume ou da Serra da Ribeirinha. Os muros de basalto, pedra sobre pedra, e o verde intenso das pastagens. “Vacas felizes, com vista para o mar e que não pagam renda”, disse-nos, a sorrir, o nosso guia.

Mais acima, nas serras, ainda se conserva a antiquíssima floresta Laurissilva que, nos Açores, Madeira e Canárias, ficou protegida de alterações que a extinguiram no continente. Por estar acima dos 500 metros de altitude, nos Açores, deu-se o nome de Floresta de Nuvens. Quando se começa a entrar neste mundo de plantas que guardam a água, tons de verde sem fim e nevoeiros que aparecem de repente, percebe-se o motivo do nome.

Só depois é que penso nisso. Naquele momento, os olhos agarram-se à paisagem sem pensar muito nas palavras, como o musgo se agarra aos troncos das altas criptomérias, tentando, talvez, chegar ao topo. Do topo, avista-se o mar, de certeza, afinal, estamos numa ilha e ele está sempre ali para nos lembrar da origem de tudo. E do mistério também.

IMG_3315.JPG

IMG_3324.JPG

IMG_3327.JPG

IMG_3346.JPG

IMG_3358.JPG

IMG_3376.JPG

IMG_3383.JPG

IMG_3421.JPG

IMG_3478.JPG

Vejam aqui o meu roteiro de três dias pela ilha Terceira, publicado no SAPO Viagens

*Se ficaram curiosos ou desconhecem esta sobremesa, o doce de vinagre é feito com leite, ovos e açúcar, o vinagre é utilizado numa pequena quantidade apenas para coalhar o leite, dando uma textura interessante ao doce.

Desconfinar no Alentejo: a vida é bela em Porto Covo

16.04.21 | Alice Barcellos

IMG-6280.jpg

A primeira viagem após um período de confinamento vai ter sempre um sabor extra a liberdade. Esta fome de mundo que trago em mim tem a capacidade de deixar os olhos mais sensíveis a tudo o que veem, conseguindo fazer com que cada paisagem percorrida pareça ainda mais bela. Então, se formos para o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é fácil devorar com os olhos e com o coração cada pedacinho de praia, falésia ou campo que nos aparece à frente.

Tinha uma imagem gravada na minha memória que queria muito reviver. O pôr do sol na estrada que vai dar à praia da Ilha do Pessegueiro. Dos muitos cenários em que já pude observar este momento tão mágico, este foi um dos que me ficou para sempre gravado na retina, mesmo após uns largos anos em que lá estive pela última vez.

Seria este já um bom pretexto para fazer os 400 e muitos quilómetros que me separam deste lugar, mas tive outros, agora, mais atuais. A oportunidade de ficar num alojamento incrível, através do contacto com o Carlo da página de Instagram @costa_vicentina_oficial, e a possibilidade de realizar a minha primeira surf trip, uma vez que estaria bem perto da praia de São Torpes e das suas ondinhas divertidas.

Assim seguimos. Longboard bem amarrada às barras do carro. Olhos atentos à estrada (vazia). Foi mesmo em São Torpes a nossa primeira paragem. Análise ao mar e toca a vestir o fato e tirar a prancha do saco. Primeira surfada feita com êxito e aquele sorriso na cara de quem tem o privilégio de poder deslizar nas ondas. O cansaço das horas a conduzir ficou lá, no mar.

IMG-6260.jpg

IMG-6269.jpg

Já o sol se havia escondido do dia, chegamos a Porto Covo, à procura de um sítio para jantar. Fomos à pizzaria Bella Vita, que recomendamos. Uma pizza saborosa é o “pós-treino” ideal para quem saiu do mar. Barriguinha cheia, seguimos em direção ao nosso ninho para os próximos dois dias.

Chegar a um sítio de noite encerra sempre aquela magia do mistério e no Monte da Cascalheira aconteceu isso mesmo, com uma dose extra de emoção, já que íamos ficar hospedados na Casa da Árvore. Sim, isso mesmo, um bungalow de madeira e cortiça construído em suspenso, completamente integrado na paisagem envolvente. De um lado, uma oliveira, de outro um limoeiro, atrás um majestoso sobreiro que emoldurava a vista de campos verdejantes até ao mar. Mas isso só iríamos conseguir ver de manhã, enquanto tentávamos compreender o canto efusivo dos pássaros que nos pareciam querer tirar da cama.

IMG-6276.jpg

IMG-6277.jpg

Dia de sol e nuvens. Ideal para andar a saltar de praia em praia entre Porto Covo e Vila Nova de Mil Fontes. Que pedacinho de paraíso. Basta explorar e escolher o areal mais vazio, mais amplo ou mais recôndito. Há opções para todos os gostos – Vierinha, Samouqueira e Malhão deixaram-me a sonhar com mais tempo e mais calor para aproveitar. De tarde, voltamos à praia de São Torpes para mais uma ondas. Quem quiser aprender a surfar tem aqui opções de escolas de surf e é um sítio ideal para iniciar-se nesta atividade.

IMG-6292.jpg

No fim do dia, fomos em busca da tal imagem que me vinha gravada na alma. Mas não encontrei aquela bola laranja a beijar o mar azul. O dia terminava nublado e os últimos raios do sol apenas pintavam algumas nuvens com aquele rosa tímido. O vento soprava, as andorinhas procuravam refúgio no forte da Ilha do Pessegueiro. As flores cor de rosa pontilhavam as falésias. Havia ali um silêncio apaziguador.

IMG-6314.jpg

Terminamos a noite a comer choco frito no Restaurante do Luís. No dia seguinte, ainda deu tempo para aproveitar o lado mais rural da viagem. Observar os animais e os belos jardins do Monte da Cascalheira, bem como as paisagens de primavera nos campos circundantes. Ficamos com a impressão de que estávamos a conduzir dentro de um fundo de ecrã do Windows.

IMG-6329.jpg

IMG-6322.jpg

Fizemo-nos à estrada, de volta ao norte, sem dizer “adeus”. Afinal, quando gostamos de um sítio, despedimo-nos sempre com um “até breve”. A vida é bela e simples em Porto Covo.

IMG-6275.jpg