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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

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Desafio de Escrita dos Pássaros #2.2: Laís e Marta

07.02.20 | Alice Barcellos

O armário de medicamentos de Laís mete inveja a qualquer farmácia. Ela adora arrumar os compartimentos. Ver se falta algum item ao setor dos primeiros socorros, se os comprimidos estão na data de validade, se ainda há anti-inflamatórios. “Não passo sem estes aqui”, diz-me, enquanto separa as cartelas de medicamentos com as pontas dos dedos delicados, unhas curtas, mãos impecavelmente limpas.

Laís é aquela pessoa que tem sempre um comprimido na bolsa para desenrascar uma amiga com dores de cabeça ou cólicas. Apesar de disfarçar, vejo nos seus olhos a satisfação de ir buscar a pastilha ao seu nécessaire, que vai com ela para todo o lado, e entregá-la à amiga, acompanhada de um comentário sobre o suposto problema de saúde. “Joana, tens de ver estas dores de cabeça, li que podem ser sintoma de alguma doença grave, um tumor ou um aneurisma”, diz, com ar de sabichona, a olhar por cima dos óculos.

As amigas riem dos seus diagnósticos. “Ai sim, Laís, foste consultar-te com o Doutor Google?”, pergunta Joana. E Laís responde. “Sim, eu informo-me antes de ir a correr ao centro de saúde. Informação é poder. Bem sei o que já passei nas mãos de médicos, com aquele olhar de desdém, nunca nos dão uma explicação razoável dos nossos problemas e nos mandam para a casa com o tratamento menos indicado. Não, minhas amigas, isso de médicos, nunca fiando. Confio mais no Doutor Google...”

Há dias que não a vejo e sinto um aperto no peito. Tenho tentado tirá-la de casa, mas sem sucesso. “Laís, anda dar uma caminhada à beira mar, estão temperaturas de primavera”, escrevi na última mensagem que lhe mandei no domingo. Sei que ficar fechada em casa só vai piorar a sua doença, nunca assumida, mas tolerada por todos. Também eu já fui perguntar ao Doutor Google o que era hipocondria e o que poderia fazer para ajudá-la. Mas Laís não quer ser ajudada. Eu que gosto tanto daqueles olhos verdes e consigo ver a mulher linda, além daquela paranoia toda. Queria tanto ajudá-la. É frustrante. Ao menos, vai respondendo às mensagens.

“Marta, já viste a epidemia que por aí anda? Sair de casa só para o estritamente necessário. Vê lá se compras uma máscara e evitas andar de transportes públicos. Ah, e faz reforço do sistema imunitário com aqueles suplementos que te dei. Cuida-te, querida. Beijinhos, Laís”.

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Imagem: Pixabay

Texto escrito no âmbito do Desafio dos Pássaros.

Tema da semana: É isso de médicos, nunca fiando. Vejam aqui todos os textos deste desafio de escrita dos blogues do SAPO. 

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