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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

E tu, onde estavas a 15 de outubro?

É comum lembrarmo-nos de onde estávamos e do que estávamos a fazer no dia de grandes tragédias. Tantas vezes já ouvi "lembro-me perfeitamente do que estava a fazer quando aconteceu o 11 de setembro" que serve de mote para depois se falar mais uma vez dos atentados que mudaram o mundo há 17 anos. Ao contrário de muitas pessoas, não me lembro muito bem do que estava a fazer quando se deu o embate dos aviões contra as torres gémeas mas sei que fiquei petrificada quando vi as imagens e a dimensão do ataque - ainda hoje fico quando revejo.

 

Sem nenhuma ligação, a não ser a da tragédia e da catástrofe, lembrei-me desta comparação neste 15 de outubro, quando passa um ano dos piores incêndios que tivemos em Portugal. O pior dia do ano, como ficou conhecido, quando ainda recuperávamos do choque de Pedrógão Grande, outra data que entrou para a história como o incêndio mais mortal no país - 66 pessoas perderam a vida.

 

Até podíamos dizer, com a leviandade desta frase, "foi um ano para esquecer", mas não. Eu não consigo esquecer as imagens dos corpos calcinados na estrada nacional 236, da imensidão da mancha de floresta queimada, das lágrimas nos olhos vermelhos de fumo de quem perdeu tudo do pouco que tinha. 

 

A 18 de junho de 2017 estava a trabalhar na edição das notícias do SAPO e lembro-me que quando começaram os incêndios em Pedrógão não se sabia ainda a magnitude que iria tomar. Até que no fim da noite começaram a chegar as notícias dos primeiros mortos e, no dia seguinte, lembro-me que não conseguia parar de ler as atualizações do que estava ali a acontecer, incrédula.

 

A 15 de outubro voltava de um fim de semana de muito calor a passear por Sintra, Cascais e Estoril. Vínhamos no carro, eu e o meu namorado, na descontração habitual de quem regressa à casa, quando na A1 começamos a ver enormes e pesadas nuvens de fumo a adensar-se no horizonte. Ficamos em alerta, desligamos a música e ligamos o rádio na TSF. Liguei os dados móveis no telemóvel. Pouco tempo depois, começamos a ouvir notícias de incêndios e começo a receber notificações no iPhone.

 

Na estrada, percorridos mais alguns quilómetros, vimos avisos de que a saída Mealhada-Cantanhede estava cortada. O que fazer? Sair já? Andar mais alguns quilómetros? Sair na altura do corte? A decisão foi sair logo e tentar fugir do trânsito e do fogo, que já estava descontrolado, com calma. Nem que tivéssemos de passar a noite em algum lugar. 

 

Entretanto anoiteceu, andamos a ver no boletim da proteção civil as estradas que estavam cortadas para evitar ir por elas. Parámos numa localidade qualquer - confesso que já nem sei onde - para jantar. A luz falhou. O ar era pesado e quente. Cheirava a fumo. O sinal da rede dos telemóveis falhava. Familiares que sabiam que estávamos na estrada tentavam ligar para saber se estava tudo bem. Apesar de ter passado longe do "olho do furacão", não deixei de ficar temerosa e ansiar logo por chegar à casa. Um pensamento egoísta enquanto muitos tentavam salvar a vida do verdadeiro perigo - 50 pessoas morreram nos incêndios de 15 de outubro. 

 

Finalmente, depois de quase seis horas de viagem, chegámos à casa, em Vila Nova de Gaia. Nada mais trazíamos de mal do que a roupa carregada de fumo e os olhos a arder. Continuei a ver as notícias daquele dia e, mais uma vez, nos dias seguintes fiquei de luto pela tragédia. Comecei a escrever este relato no Facebook mas apaguei. Não considerei sensato dizer que tinha passado ao lado da tragédia enquanto regressava à casa de um fim de semana de passeio, numa altura de tanto sofrimento e perdas.

 

O tempo passou, um ano. As pessoas esquecem muito rápido de quase tudo nesta era do imediato e do instantâneo. Nas zonas afetadas pelos incêndios, a resiliência encontra espaço entre a terra queimada e os sonhos desfeitos. Será que daqui a dez anos vamos voltar a falar dos incêndios de 2017 em Portugal? Ou vamos ver repetir erros do passado? Mais uma vez, só o tempo dirá. Mas, até lá, é bom que não se apaguem por completo as memórias para que no futuro também possamos aprender com elas.

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