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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

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Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

"Minha pátria é a língua portuguesa"

05.05.20 | Alice Barcellos

Quando aterrei pela primeira vez no aeroporto de Lisboa, já lá vão 20 anos, lembro-me que fazia calor e ventava num dia quente de agosto. Era menor de idade e era a primeira vez que viajava de avião, mas não senti medo nem desconforto. Fiz "amizade" com dois miúdos que viajavam também sozinhos, brasileiros, a irmã mais velha e o irmão mais novo. Passei grande parte da viagem a conversar com a irmã mais velha. Já não me lembro sobre o quê e como ela se chamava, mas lembro da sensação boa que é poder ter alguém para trocar algumas palavras num momento em que nos sentimos sozinhos.

É sempre bom ter alguém ao nosso lado que fala a mesma língua. Mesmo hoje, tendo já algumas viagens na bagagem, viro sempre o pescoço quando ouço alguém a falar português num país estrangeiro. Creio que esta seja uma característica do ser humano. Sentimo-nos mais perto de casa quando ouvimos a nossa língua.

Voltando a Lisboa. Quando, finalmente, desembarcamos, uma comissária de bordo dirigiu-me a palavra em português de Portugal. Foi a primeira vez que alguém falou comigo com este sotaque, naquela altura, totalmente desconhecido aos meus ouvidos. Lembro-me que aquelas palavras entraram sem sentido em mim. Tive de pedir à comissária para repetir. Mais uma vez, a borracha do tempo tratou de apagar o conteúdo da conversa, mas creio que estivesse relacionado com o facto de eu ir fazer ou não escala.

Não, ficaria por Lisboa. A minha mãe estava à minha espera, debruçada naquela grade que separa a parte restrita das chegadas e que temos de contornar quando chegamos aos aeroportos - quase sempre à procura de um rosto familiar do outro lado. Ali, naquele dia quente de agosto, eu vi o rosto aconchegante da minha mãe.

Chegar num país estrangeiro aos 13 anos não foi fácil, mas o facto de já ter raízes familiares ajudou no processo. Isso e a língua. Não que tenha sido amor à primeira palavra. Houve uma estranheza inicial, como que o cérebro a pedir ao ouvido para afinar a frequência para aquela forma de falar. Os portugueses, habituados às novelas ou à música do Brasil, compreendem melhor o sotaque brasileiro, já nós, brasileiros, nem sempre conseguimos apanhar à primeira o sotaque português. É claro que bastam alguns minutos de conversa para esta sensação dissipar-se na troca de palavras. Afinal, falamos a mesma língua.

Desde que vivo em Portugal já viajei um tanto por este país tão bonito e rico em sotaques. Eu adoro afinar a audição e saborear os sotaques dos lugares que vou.Talvez tenha sido por isso que comecei a falar com sotaque de Portugal com tanta naturalidade, uma vez que conheço pessoas do Brasil que vivem cá também há muitos anos e não conseguem "trocar" tão facilmente de sotaques.

Acho incrível que, com poucos quilómetros de distância, seja possível encontrar sotaques tão diferentes. Formas de falar que carregam em si a ancestralidade cultural e histórica dos lugares por onde passamos. Quase sempre compreendi os sotaques das diferentes partes de Portugal em que estive, do Minho ao Algarve, de Trás-os-Montes ao Alentejo.

A única vez que me causou aquela estranheza familiar (parecida com o dia em que aterrei em Lisboa) foi em São Miguel, Açores, quando pedi uma informação a uma mulher que circulava em Vila Franca. Pedimos indicações de um lugar para comer, um restaurante para irmos almoçar. Confesso que arrancamos o carro sem perceber o lugar que a senhora nos tinha indicado. Depois, mais tarde, a conversar com o casal do alojamento onde ficamos, foi-nos explicado um pouco das origens do sotaque de São Miguel e da influência do francês. Fez todo o sentido.

Hoje, quando falo, o meu sotaque não denuncia onde nasci, mas quando cá cheguei a doçura do meu "carioquês" fazia com que qualquer pessoa soubesse de onde eu vinha. Ainda hoje falo "carioquês" com a minha mãe, a minha família e quando estou no Rio de Janeiro, claro. Mas quando estou com a família do lado de cá, é o português de Portugal que me sai, naturalmente, e quem me ouve diz que tenho um leve sotaque do Porto. E ainda bem, gosto que saibam de onde venho, mesmo que seja apenas uma parte da minha história.

Tenho dois países que posso chamar de "casa", dois passaportes e dois bilhetes de identidade. Mas a minha pátria é só uma. Como tão bem escreveu o nosso poeta maior, a "minha pátria é a língua portuguesa". Com qualquer sotaque, terei sempre orgulho em falar esta língua tão bonita e rica.

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Imagem: Os bonitos guarda-chuvas de Águeda. Ricardo Resende / Unsplash

2 comentários

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    Alice Barcellos

    06.05.20

    Oh, obrigada! Beijinhos
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