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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

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Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

O retrato

24.02.21 | Alice Barcellos

"Sente-se aqui, minha filha". A menina sentava-se, tentando ficar quieta para o retrato, o que não era fácil quando se tem dez anos. Do outro lado, a avó, compenetrada, afiava o lápis de ponta macia que escorregava bem no papel. Depois, levantava o lápis no ar, na vertical e na horizontal, como que a medir o rosto da modelo. Ela já havia feito isso com as filhas e o filho, o marido e, agora, eram os netos os escolhidos para ficarem eternizados na precisão dos seus traços.

Alice não compreendia como a avó conseguia transpor tão perfeitamente o desenho do seu rosto para o papel. Os olhos pequenos e brilhantes, as bochechas salientes, os lábios carnudos, o cabelo desalinhado, o pequeno sinal a meio do lado esquerdo da face. Ela queria também aprender a desenhar como a avó, até chegou a fazer algumas das suas aulas de pintura. Esforçou-se, mas não progrediu, encontrou mais alento nas palavras. Afinal, com elas também é possível desenhar belos retratos e pintar quadros cheios de vida. E não há nada melhor do que as palavras para contar as memórias que nos marcam para sempre.

Saudades daquele tempo, avó.

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Texto escrito no âmbito dos Desafios da Abelha. Veja aqui mais textos e desafios.

Imagem: Kelly Sikkema / Unsplash

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