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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

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Pré-desafio de Escrita dos Pássaros: A menina que aprendeu a voar

23.01.20 | Alice Barcellos

Era uma vez uma menina que invejava os pássaros. Não era uma questão de gostar pois até nem lhes achava muita piada como a outros animais. Os pássaros não lhe despertavam a mesma ternura do que os cães, nem a mesma curiosidade do que os gatos. Tinha pena dos que estavam fechados em gaiolas, como os do seu avô, que viviam aos saltinhos tristes dentro daquelas pequenas prisões, alegrando a casa com o seu canto aos primeiros momentos do amanhecer.

Ficava, contudo, fascinada com a capacidade de voar. Era isso que mais invejava. Era capaz de estar horas deitada no jardim, nas tardes quentes de verão, a olhar para o céu e a apreciar o voo dos pássaros, lá no alto. "Deve ser uma sensação única poder ter asas, ver o mundo de cima, apreciar novas perspectivas e aprimorar a arte de voar", pensava a menina.

Nos seus desenhos, fazia sempre alguns pássaros, ao longe, em forma de “v”, que, mais abertos ou mais fechados, criavam uma revoada. Até que passou dos lápis para os livros e reparou que um livro aberto também tem a forma de um pássaro. Duas metades para cada lado, duas asas. Ler era, afinal, uma forma de voar, de ver as histórias de cima e ganhar novos mundos.

Finalmente, a menina começou a escrever. Primeiro, criou as suas histórias, depois, os seus poemas. Apanhou o gosto pela rima, foi melhorando a arte de juntar palavras e criar significados que toquem no coração das pessoas, ora leves, como um planar de asas, ora acutilantes, como o mergulho certeiro de um pássaro no oceano.

Aprendeu que a escrita também pode ser uma gaiola que nos aprisiona, caso nos deixemos levar em demasia pela forma e pelas críticas – as dos outros e, as piores, as nossas.

Chegou a pensar que lhe tinham cortado as asas, mas era tarde demais. Já tinha aprendido a voar. E tal como os pássaros são livres porque voam, a menina, agora mulher, é livre porque escreve.

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