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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Querida, Lili

08.11.19 | Alice Barcellos

Querida, Lili

Quando esta carta chegar a ti, provavelmente, estarás numa brincadeira qualquer pelo jardim, a correr descalça, a brincar de ser sereia na piscina ou a vestir os vestidos antigos, esquecidos nos armários da casa. Pelo que me lembro, estas são algumas das tuas brincadeiras favoritas e não gostaria, de todo, de interromper-te com estas palavras. Espero, contudo, que seja o teu avô a ir entregar-te a carta, ele que sempre trocou correspondência de uma forma tão singela e carinhosa com a família que estava longe. Escreveu inúmeras cartas com a sua letrinha espremida e, nos últimos anos, tremida.

Já se passaram alguns anos desde a última vez em que estivemos juntas, mas, em certos dias, parece que foi ontem. Lembro-me sempre da criança curiosa e alegre que és, tentando manter estas características comigo, mesmo quando este complicado mundo dos adultos insiste em cortar-nos as asas.

Ainda não fazes ideia, mas esta alegria vai ajudar-te a ultrapassar os momentos mais sombrios da tua vida. E fico feliz ao saber que as pessoas que tens à tua volta contribuem para que sejas uma menina boa, verdadeira, leal e honesta - valores cada vez mais valiosos, por serem raros, no nosso mundo.

Sei que os teus dias são longos, arrastam-se entre as idas para a escola, as corridas na hora de voltar para a casa, o almoço delicioso com os avós, as brincadeiras em casa das tuas melhores amigas, as brigas com o teu irmão, os mergulhos na piscina, os banhos de chuva, os mimos da tua mãe. As montanhas, os pássaros, os livros, a música, a dança, os quadros e todas as coisas bonitas que fazem parte da tua vida. Aproveita tudo isso pois quando fores mais crescida vais ver que o tempo começa a passar muito rápido. Vão dizer-te isso, mas não vais compreender porque, do alto dos teus oito anos, vais achar que ainda tens todo o tempo do mundo. E tens.

Que a vida te vai apresentar grandes desafios, que vais ter dias tristes, de mal com o mundo e contigo, que não vai ser fácil - isso terás que descobrir por ti própria (e quando julgares que já sabes alguma coisa do mundo e das pessoas, vais ver que sabes muito pouco).

Assim sendo, aproveita cada dia - como te ensinou a tua avó, "carpe diem" - e guarda num lugar cativo do teu coração o amor que recebes da tua família. Este amor não tem prazo de validade e vai estar contigo para sempre. Vai ser ele que te vai confortar quando estas pessoas estiverem longe e quando aprenderes o verdadeiro significado da palavra saudade.

Um beijinho grande e um abraço apertado desta amiga que te escreve do outro lado do Atlântico,

Alice

Vila Nova de Gaia, 08/11/2019

P.S.: Espero que guardes a minha carta com carinho, na tua caixinha de cartas, junto com os postais que o teu pai te envia das viagens dele e as cartas que recebes das tuas melhores amigas, escritas com letras bonitas, em papel de carta, auto-colantes e envelopes catitas. 

debby-hudson-DR31squbFoA-unsplash.jpgImagem: Debby Hudson / Unsplash

Texto escrito no âmbito do Desafio dos Pássaros.

Tema da semana: Escreve uma carta para a criança que foste. Vejam aqui todos os textos deste desafio de escrita dos blogues do SAPO.

 

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