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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Portugal não é um país machista, nem racista. Está tudo bem até levarmos murros da realidade

Lembro-me que quando comecei a trabalhar como jornalista uma das primeiras reportagens que fiz foi sobre violência doméstica. Foi um trabalho no âmbito de alguma data relacionada com o tema, aqueles dias que se marcam no calendário para que se fale sobre um assunto importante e sério. Assinala-se na rádio, fala-se nas televisões, publicam-se reportagens, mas no dia seguinte já quase ninguém se lembra e há outra data, talvez de um assunto engraçado e ligeiro, que também vai ser anunciado na rádio, falado nas televisões e partilhado nas redes sociais.

 

Ainda procurei mas não encontrei o link deste trabalho, já lá vão quase dez anos. O que ficou mesmo gravado na minha mente daquelas entrevistas foram as palavras de muitas especialistas na matéria sobre o principal problema da violência doméstica em Portugal: a falha do sistema em proteger as mulheres que são vítimas. 

 

Hoje, com o tema mais atual do que nunca e com os assustadores números de mulheres mortas por homens só em janeiro, infelizmente, não há nada a acrescentar. O sistema continua a falhar e as mulheres continuam a morrer na mão de maridos, companheiros, namorados ou homens com quem já tiveram alguma destas relações. 

 

Da polícia à justiça, passando por outros profissionais a quem mulheres agredidas recorrem, existem inúmeros relatos de descaso, irrelevância e falta de atenção a situações de violência que ficam sinalizadas e, depois, têm o pior desfecho possível: morte(s).

 

Podemos criar leis mais duras contra os agressores e garantir mais segurança às vítimas. As falhas do sistema podem ser corrigidas e é verdade que têm existido progressos nas leis que punem a violência contra mulheres e contra seres humanos no geral. 

 

Mas e as mentalidades, como se corrigem? A violência doméstica está diretamente ligada com outro problema grave da sociedade: o machismo. Tal como outros "ismos", há sempre quem diga que isso não existe em Portugal. Há umas semanas, discutíamos se éramos ou não um país racista e muitas vozes sonantes fizeram questão de dizer que não, mas há estudos que demonstram o contrário. E as afirmações que ouvimos por aí também provam que há muita gente que acredita que existem raças inferiores. Quem nunca ouviu afirmações racistas em Portugal?

 

O mesmo digo para afirmações machistas. Uma mulher não pode cortar o cabelo como quer ou usar uma tal roupa porque o namorado não gosta ou não deixa. Uma mulher não pode sair sozinha com as amigas porque o marido não aceita. Uma mulher que usa um decote está a pedir para ser violada. Uma mulher que tenha passado por várias relações é uma puta. Uma mulher mais velha solteira é uma descompensada. Há mulheres que gostam de apanhar. Ela até mereceu. E assim, entre tanta coisa errada, quase que se torna certo que uma mulher possa apanhar do homem. 

 

Quantas vezes já ouviram frases do género da boca de pessoas que vos são mais ou menos próximas? Quantas mulheres conhecem que vivem em função do marido/companheiro? Que são escravas do trabalho doméstico - porque assim foram educadas -  e ainda se curvam perante às críticas e ordens do marido? Quantas vezes não vemos estas posições e formas de viver a vida refletidas em vários setores da sociedade?

 

Creio que todos sabemos a resposta. Só não vê quem não quer ou quem compactua com esta forma de pensar. Enquanto houver machismo vai continuar a existir feminicídio. Enquanto houver desrespeito e desigualdade vai continuar a existir violência.

 

Felizmente, a mudança já começou. Há cada vez mais relacionamentos vividos de igual para igual, casais que se tratam como parceiros, valorizando-se mutuamente e educando os filhos (e também os pais, muitas das vezes) para a igualdade de género.

 

O Estado tem a obrigação de proteger as vítimas de violência doméstica, pode e deve fazer mais e melhor para estas mulheres que sofrem todos os dias, quase sempre em silêncio. Mas a verdadeira mudança começa dentro das quatro paredes - do quarto, da cozinha, do infantário, da escola, do escritório, do consultório, da esquadra, da assembleia e do tribunal.

 

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Imagem: Pixabay

Sistelo, a aldeia parada no tempo que ganhou o título de pequeno Tibete português

Sistelo ficou na moda nos últimos tempos. Foi apelidada de pequeno Tibete português. A sua paisagem em socalcos foi classificada como monumento nacional e umas quantas publicações falaram desta aldeia encaixada entre montanhas nos Arcos de Valdevez. Fiquei curiosa e quis ir ver Sistelo com os meus próprios olhos (e lentes).

 

Fui num destes dias deste outono ainda vestido de verão, com temperaturas acima dos 25 graus e céu azul. Pelas estradas verdes do Minho, cruzamos um riacho, passamos por bois a pastar, vimos a vinha que começava a mudar de cor, até que chegamos à aldeia.

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Os socalcos esculpidos nos montes saltam à vista atrás da placa grande que recebe quem aqui chega. Degraus verdes nas montanhas feitos para a agricultura que deram fama à esta pequena aldeia.

 

Ainda antes de explorar as ruelas de Sistelo, estacionamos o carro num ponto alto para ter uma visão mais geral do lugar. Castanheiros carregados de ouriços pontuavam a paisagem envolvente.

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A melhor forma de explorar a aldeia é estacionar o carro e ir a pé. Quando cheguei ao ponto central da aldeia, que tem uma fonte, fui recebida por um cão muito simpático que foi o meu guia durante a visita. Não vi muita gente nas ruas.

 

Alguns turistas, algumas pessoas locais que passaram com pressa e seguiram para os seus afazeres. Vi uma senhora idosa no quintal de uma casa, disse-lhe “boa tarde”. Continuei distraída a fotografar as ovelhas e quando me virei para trás a senhora já tinha desaparecido. 

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Os antigos espigueiros são outra das marcas de Sistelo. Atrás destas construções, um tanque comum com colchas brancas e roupa a secar.

 

Num dia sem vento, o silêncio ali naquele lugar de calma parecia ainda maior. O tempo parecia ter parado.

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E tu, onde estavas a 15 de outubro?

É comum lembrarmo-nos de onde estávamos e do que estávamos a fazer no dia de grandes tragédias. Tantas vezes já ouvi "lembro-me perfeitamente do que estava a fazer quando aconteceu o 11 de setembro" que serve de mote para depois se falar mais uma vez dos atentados que mudaram o mundo há 17 anos. Ao contrário de muitas pessoas, não me lembro muito bem do que estava a fazer quando se deu o embate dos aviões contra as torres gémeas mas sei que fiquei petrificada quando vi as imagens e a dimensão do ataque - ainda hoje fico quando revejo.

 

Sem nenhuma ligação, a não ser a da tragédia e da catástrofe, lembrei-me desta comparação neste 15 de outubro, quando passa um ano dos piores incêndios que tivemos em Portugal. O pior dia do ano, como ficou conhecido, quando ainda recuperávamos do choque de Pedrógão Grande, outra data que entrou para a história como o incêndio mais mortal no país - 66 pessoas perderam a vida.

 

Até podíamos dizer, com a leviandade desta frase, "foi um ano para esquecer", mas não. Eu não consigo esquecer as imagens dos corpos calcinados na estrada nacional 236, da imensidão da mancha de floresta queimada, das lágrimas nos olhos vermelhos de fumo de quem perdeu tudo do pouco que tinha. 

 

A 18 de junho de 2017 estava a trabalhar na edição das notícias do SAPO e lembro-me que quando começaram os incêndios em Pedrógão não se sabia ainda a magnitude que iria tomar. Até que no fim da noite começaram a chegar as notícias dos primeiros mortos e, no dia seguinte, lembro-me que não conseguia parar de ler as atualizações do que estava ali a acontecer, incrédula.

 

A 15 de outubro voltava de um fim de semana de muito calor a passear por Sintra, Cascais e Estoril. Vínhamos no carro, eu e o meu namorado, na descontração habitual de quem regressa à casa, quando na A1 começamos a ver enormes e pesadas nuvens de fumo a adensar-se no horizonte. Ficamos em alerta, desligamos a música e ligamos o rádio na TSF. Liguei os dados móveis no telemóvel. Pouco tempo depois, começamos a ouvir notícias de incêndios e começo a receber notificações no iPhone.

 

Na estrada, percorridos mais alguns quilómetros, vimos avisos de que a saída Mealhada-Cantanhede estava cortada. O que fazer? Sair já? Andar mais alguns quilómetros? Sair na altura do corte? A decisão foi sair logo e tentar fugir do trânsito e do fogo, que já estava descontrolado, com calma. Nem que tivéssemos de passar a noite em algum lugar. 

 

Entretanto anoiteceu, andamos a ver no boletim da proteção civil as estradas que estavam cortadas para evitar ir por elas. Parámos numa localidade qualquer - confesso que já nem sei onde - para jantar. A luz falhou. O ar era pesado e quente. Cheirava a fumo. O sinal da rede dos telemóveis falhava. Familiares que sabiam que estávamos na estrada tentavam ligar para saber se estava tudo bem. Apesar de ter passado longe do "olho do furacão", não deixei de ficar temerosa e ansiar logo por chegar à casa. Um pensamento egoísta enquanto muitos tentavam salvar a vida do verdadeiro perigo - 50 pessoas morreram nos incêndios de 15 de outubro. 

 

Finalmente, depois de quase seis horas de viagem, chegámos à casa, em Vila Nova de Gaia. Nada mais trazíamos de mal do que a roupa carregada de fumo e os olhos a arder. Continuei a ver as notícias daquele dia e, mais uma vez, nos dias seguintes fiquei de luto pela tragédia. Comecei a escrever este relato no Facebook mas apaguei. Não considerei sensato dizer que tinha passado ao lado da tragédia enquanto regressava à casa de um fim de semana de passeio, numa altura de tanto sofrimento e perdas.

 

O tempo passou, um ano. As pessoas esquecem muito rápido de quase tudo nesta era do imediato e do instantâneo. Nas zonas afetadas pelos incêndios, a resiliência encontra espaço entre a terra queimada e os sonhos desfeitos. Será que daqui a dez anos vamos voltar a falar dos incêndios de 2017 em Portugal? Ou vamos ver repetir erros do passado? Mais uma vez, só o tempo dirá. Mas, até lá, é bom que não se apaguem por completo as memórias para que no futuro também possamos aprender com elas.

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