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Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Diário de fuga

Na rotina dos sonhos fugimos dos dias

Sistelo, a aldeia parada no tempo que ganhou o título de pequeno Tibete português

Sistelo ficou na moda nos últimos tempos. Foi apelidada de pequeno Tibete português. A sua paisagem em socalcos foi classificada como monumento nacional e umas quantas publicações falaram desta aldeia encaixada entre montanhas nos Arcos de Valdevez. Fiquei curiosa e quis ir ver Sistelo com os meus próprios olhos (e lentes).

 

Fui num destes dias deste outono ainda vestido de verão, com temperaturas acima dos 25 graus e céu azul. Pelas estradas verdes do Minho, cruzamos um riacho, passamos por bois a pastar, vimos a vinha que começava a mudar de cor, até que chegamos à aldeia.

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Os socalcos esculpidos nos montes saltam à vista atrás da placa grande que recebe quem aqui chega. Degraus verdes nas montanhas feitos para a agricultura que deram fama à esta pequena aldeia.

 

Ainda antes de explorar as ruelas de Sistelo, estacionamos o carro num ponto alto para ter uma visão mais geral do lugar. Castanheiros carregados de ouriços pontuavam a paisagem envolvente.

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A melhor forma de explorar a aldeia é estacionar o carro e ir a pé. Quando cheguei ao ponto central da aldeia, que tem uma fonte, fui recebida por um cão muito simpático que foi o meu guia durante a visita. Não vi muita gente nas ruas.

 

Alguns turistas, algumas pessoas locais que passaram com pressa e seguiram para os seus afazeres. Vi uma senhora idosa no quintal de uma casa, disse-lhe “boa tarde”. Continuei distraída a fotografar as ovelhas e quando me virei para trás a senhora já tinha desaparecido. 

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Os antigos espigueiros são outra das marcas de Sistelo. Atrás destas construções, um tanque comum com colchas brancas e roupa a secar.

 

Num dia sem vento, o silêncio ali naquele lugar de calma parecia ainda maior. O tempo parecia ter parado.

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E tu, onde estavas a 15 de outubro?

É comum lembrarmo-nos de onde estávamos e do que estávamos a fazer no dia de grandes tragédias. Tantas vezes já ouvi "lembro-me perfeitamente do que estava a fazer quando aconteceu o 11 de setembro" que serve de mote para depois se falar mais uma vez dos atentados que mudaram o mundo há 17 anos. Ao contrário de muitas pessoas, não me lembro muito bem do que estava a fazer quando se deu o embate dos aviões contra as torres gémeas mas sei que fiquei petrificada quando vi as imagens e a dimensão do ataque - ainda hoje fico quando revejo.

 

Sem nenhuma ligação, a não ser a da tragédia e da catástrofe, lembrei-me desta comparação neste 15 de outubro, quando passa um ano dos piores incêndios que tivemos em Portugal. O pior dia do ano, como ficou conhecido, quando ainda recuperávamos do choque de Pedrógão Grande, outra data que entrou para a história como o incêndio mais mortal no país - 66 pessoas perderam a vida.

 

Até podíamos dizer, com a leviandade desta frase, "foi um ano para esquecer", mas não. Eu não consigo esquecer as imagens dos corpos calcinados na estrada nacional 236, da imensidão da mancha de floresta queimada, das lágrimas nos olhos vermelhos de fumo de quem perdeu tudo do pouco que tinha. 

 

A 18 de junho de 2017 estava a trabalhar na edição das notícias do SAPO e lembro-me que quando começaram os incêndios em Pedrógão não se sabia ainda a magnitude que iria tomar. Até que no fim da noite começaram a chegar as notícias dos primeiros mortos e, no dia seguinte, lembro-me que não conseguia parar de ler as atualizações do que estava ali a acontecer, incrédula.

 

A 15 de outubro voltava de um fim de semana de muito calor a passear por Sintra, Cascais e Estoril. Vínhamos no carro, eu e o meu namorado, na descontração habitual de quem regressa à casa, quando na A1 começamos a ver enormes e pesadas nuvens de fumo a adensar-se no horizonte. Ficamos em alerta, desligamos a música e ligamos o rádio na TSF. Liguei os dados móveis no telemóvel. Pouco tempo depois, começamos a ouvir notícias de incêndios e começo a receber notificações no iPhone.

 

Na estrada, percorridos mais alguns quilómetros, vimos avisos de que a saída Mealhada-Cantanhede estava cortada. O que fazer? Sair já? Andar mais alguns quilómetros? Sair na altura do corte? A decisão foi sair logo e tentar fugir do trânsito e do fogo, que já estava descontrolado, com calma. Nem que tivéssemos de passar a noite em algum lugar. 

 

Entretanto anoiteceu, andamos a ver no boletim da proteção civil as estradas que estavam cortadas para evitar ir por elas. Parámos numa localidade qualquer - confesso que já nem sei onde - para jantar. A luz falhou. O ar era pesado e quente. Cheirava a fumo. O sinal da rede dos telemóveis falhava. Familiares que sabiam que estávamos na estrada tentavam ligar para saber se estava tudo bem. Apesar de ter passado longe do "olho do furacão", não deixei de ficar temerosa e ansiar logo por chegar à casa. Um pensamento egoísta enquanto muitos tentavam salvar a vida do verdadeiro perigo - 50 pessoas morreram nos incêndios de 15 de outubro. 

 

Finalmente, depois de quase seis horas de viagem, chegámos à casa, em Vila Nova de Gaia. Nada mais trazíamos de mal do que a roupa carregada de fumo e os olhos a arder. Continuei a ver as notícias daquele dia e, mais uma vez, nos dias seguintes fiquei de luto pela tragédia. Comecei a escrever este relato no Facebook mas apaguei. Não considerei sensato dizer que tinha passado ao lado da tragédia enquanto regressava à casa de um fim de semana de passeio, numa altura de tanto sofrimento e perdas.

 

O tempo passou, um ano. As pessoas esquecem muito rápido de quase tudo nesta era do imediato e do instantâneo. Nas zonas afetadas pelos incêndios, a resiliência encontra espaço entre a terra queimada e os sonhos desfeitos. Será que daqui a dez anos vamos voltar a falar dos incêndios de 2017 em Portugal? Ou vamos ver repetir erros do passado? Mais uma vez, só o tempo dirá. Mas, até lá, é bom que não se apaguem por completo as memórias para que no futuro também possamos aprender com elas.

Cinco pontos a reter das eleições brasileiras

A primeira volta das eleições presidenciais no Brasil ficou marcada por uma quase vitória de Bolsonaro do PSL que vai, a 28 de outubro, outra vez a votos com o candidato do PT, Fernando Haddad. Mesmo que impensável para grande parte dos brasileiros que eu conheço, é quase certo que Bolsonaro vá ser o próximo presidente eleito do Brasil, o que demonstra o falhanço total do sistema político do país.

 

1. O sistema político falhou. Há muitos anos que a política brasileira é caracterizada pela corrupção, algo que é, de resto, generalizado no país. Os escândalos de corrupção ao mais alto escalão ajudaram a denegrir de vez a imagem que o povo tinha dos políticos. Foi o terreno ideal para a ascensão de Bolsonaro que aparece como um salvador da pátria, embora seja mais do que conhecido que também ele, há quase 30 anos na política, foi e é corrupto

 

2. O Nordeste levou o Brasil para a segunda volta - e já está a ser alvo de xenofobia e insultos nas redes sociais. Haddad só conseguiu ir para o segundo turno graças aos votos da região do Nordeste brasileiro.

 

3. As fake news conseguiram mudar a opinião das pessoas. Mais do que a dita imprensa tradicional, com a televisão em destaque, esta campanha presidencial aconteceu nas redes sociais. Muitas pessoas foram manipuladas por notícias falsas e informações erradas, dadas como certas e partilhadas vezes sem conta nas redes. De acordo com um estudo da Universidade de Oxford, os apoiantes de Bolsonaro são os que compartilham o maior número de fontes falsas de informação ou de baixa qualidade. Já os apoiantes de Haddad são os que publicam o maior volume de informação falsa. Conclusão: as notícias falsas e a falta de credibilidade de informação são uma realidade nos dias de hoje que têm poder em influenciar o voto.

 

4. A campanha contra o PT resultou. Após 13 anos na presidência, primeiro com Lula e, depois, com Dilma, o Partido dos Trabalhadores (PT) foi retirado do poder através do que muitos chamam de golpe. A verdade é que o sentimento anti-petista se comprovou nos resultados destas eleições.

 

5. O futuro pode ser ainda mais sombrio. Com um panorama político muito complicado, crise social e de valores, insegurança, discurso do ódio, assassinatos a sangue frio de líderes (quem matou Marielle?) e retrocesso em direitos adquirios, o futuro do Brasil pode ser ainda mais sombrio com a chegada de Bolsonaro ao poder. Como se costuma dizer, a democracia não é perfeita - e está cada vez mais fragilizada em todo o mundo - mas é o melhor que temos neste momento.

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Cartoon: Carlos Latuff

 

 

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